Pesquisa da opinião em oito países
Pesquisa quantitativa realizada pela consultora Ipsos*
©CICV/VII/James Nachtwey/ph-e-00198
Ilha de Mindanao, Filipinas. Um jovem acompanha sua avó deslocada em visita a seu vilarejo abandonado.
A pesquisa se concentra em alguns dos lugares mais conturbados – os Solferinos de hoje – que estão passando por um conflito armado ou sofrendo suas consequências. Os países foram Afeganistão, Colômbia, Filipinas, Geórgia, Haiti, Líbano, Libéria e República Democrática do Congo (RDC).
Os resultados do estudo oferecem uma visão mais clara quanto a como as pessoas vivenciam o conflito armado e o impacto a longo prazo que isso tem sobre suas vidas. Também revela algumas descobertas valiosas para o CICV com relação à condução do trabalho humanitário.
"A novidade com relação a essa pesquisa é que ela nos dá um panorama mais abrangente de como as vítimas de conflitos armados e violência são afetadas em geral. Os números representam milhões de pessoas que estão lutando para sustentar seus filhos, que foram obrigadas a fugir de suas aldeias sob ameaça ou que vivem com o constante medo de que alguém que eles amam seja morto, agredidos ou que desapareça. Esta pesquisa é um passo em direção ao reconhecimento de nossa responsabilidade com relação às pessoas às quais atendemos."
Pierre Krähenbühl, diretor de operações do CICV
As questões abordavam experiências pessoais dos entrevistados com o conflito armado e a violência, o impacto específico que isso tem sobre eles, as visões quanto à conduta aceitável dos combatentes, a eficácia e as ações que esperam das organizações e terceiros relacionados, a conscientização quanto às Convenções de Genebra e o papel dos profissionais de saúde durante o conflito armado.
Os resultados apresentam uma poderosa visão das experiências e opiniões dos civis que lidam com alguma das mais atormentadoras situações no mundo. O trabalho permite que o CICV entenda os mais profundos valores, motivações, medos e aspirações daqueles que foram vítimas diretas de conflitos armados ou violência. A pesquisa qualitativa foi realizada por meio de grupos de foco e entrevistas individuais mais profundas realizadas pela equipe do CICV. Dentre os entrevistados individualmente, estavam deslocados, familiares separados, socorristas e outras pessoas afetadas diretamente pelo conflito armado ou a violência.
"Ao conversar com diferentes pessoas e, de fato, escutar o que têm a dizer, podemos ver a situação através de seus olhos. Isso fará melhorar e nos ajudará em nossa abordagem para ajudar a eles e outras pessoas necessitadas."
Charlotte Lindsey, diretora-adjunta de comunicação do CICV
Algumas partes dos relatórios que ilustram alguns pontos-chaves:
Deslocamento
De todas as pessoas que passaram por conflito armado, 56% foram deslocadas. Em determinados contextos, este número é mais alto, como no Afeganistão, onde 76% foram deslocadas, na República Democrática do Congo, 58%, no Líbano (61%) e na Libéria, onde quase nove entre dez pessoas (90%) responderam que tiveram de deixar a própria casa.
"Tudo o que eu queria era poder cultivar meu pedaço de terra e viver da colheita. Hoje sou rotulado de 'deslocado'. É um estigma e uma humilhação continua."
Jorge, 34, deslocado interno, Colômbia
"Tivemos de fugir de nossa casa. Era muito perigoso ficar aí. Não trouxe nada comigo, só uma bolsa plástica e nada mais. As pessoas corriam – me fez lembrar de imagens que via em filmes de guerra."
Baia, 37, deslocado interno, Geórgia
"Nossas malas estão sempre feitas. Não as desfazemos para podermos sair a qualquer momento que formos atacados de novo."
Josefina, 29, deslocada interna, Filipinas
Maiores medos durante conflitos armados
Diante de tantas ameaças, o que as pessoas mais temem nos conflitos armados? As três principais questões apontadas:
- Perder um ente querido, item mencionado por uma média de 38% dos entrevistados;
- Dificuldades econômicas (31%); e
- Deslocamento / tornar-se refugiado (24%).
Os profissionais de saúde devem ser protegidos
As pessoas se opõem aos ataques aos profissionais de saúde e às ambulâncias. A maioria das pessoas afirma que os ataques aos agentes de saúde (89%) e às ambulâncias (87%) nunca são aceitáveis. Praticamente todos (98% para cima) têm esta opinião nas Filipinas, Líbano e Colômbia. No entanto, no Afeganistão, 27% afirmam que, às vezes, existem razões para atacar os agentes de saúde e 32% acreditam que, às vezes, há motivos que justificam atacar as ambulâncias.
Para reduzir o risco de ataque, os entrevistados afirmam que os agentes de saúde e as ambulâncias devem:
- manter a neutralidade / não tomar partido;
- identificar claramente seu papel.
Cuidados com a saúde para todos durante o conflito armado
O apoio aos cuidados com a saúde nos conflitos armados é quase universal. a questão sobre quem os agentes de saúde e as ambulâncias devem ajudar não chega a ser um problema para os entrevistados. Há um consenso generalizado nos oito países de que os agentes de saúde devem ser protegidos mesmo quando estão tratando dos feridos ou doentes entre os combatentes inimigos, especialmente quando tratam dos inimigos civis.
Praticamente todos (96%) aceitam o princípio de que todos os feridos ou doentes durante um conflito armado devem ter o direito aos cuidados com a saúde. O princípio é fortemente apoiado em todos os países (96% no Líbano a 71% no Afeganistão). Da mesma maneira, a maioria das pessoas (89%) quer que os agentes de saúde cuidem dos feridos de ambos os lados nos conflitos armados. O nível de apoio a este princípio varia de 96% na Colômbia para 84% no Afeganistão.
“…eles cuidavam dos feridos e dos vulneráveis que estavam doentes e precisavam de ajuda. Portanto, se uma pessoa os fere, está ferindo toda a população. É importante proteger essas pessoas.”
Decland, socorrista, Libéria
“A equipe médica deve estar disponível para ajudar e é essencial respeitá-los porque eles salvam vidas. Fui salvo por eles.”
Fernando, 35, vítima de mina terrestre, Colômbia
"Os resultados revelam um amplo apoio às ideias essenciais por trás das Convenções de Genebra, do DIH como um todo, pelas pessoas que, de fato, vivem em países afetados pela violência. Na minha opinião, é muito encorajador que, apesar de terem enfrentado os horrores do conflito, as pessoas tendam a concordar que com certos tipos de comportamento são inaceitáveis, como matar civis, sequestrar, torturar, atacar monumentos religiosos, saquear e abusar sexualmente. Vemos isso como um forte indicador de que as pessoas em países afetados pela guerra veem mais respeito pelo DIH, além de sua implementação. O CICV vê da mesma forma."
Philip Spoerri, diretor de Direito Internacional do CICV
* * Ipsos é um dos maiores grupos de pesquisas de opinião do mundo, com operações de primeiro nível em mais de 60 países e com acesso, através de seus parceiros de pesquisa, às partes onde eles não têm escritório. Para mais informações:www.ipsos.com