©CICV/ A.Nelson
Nikoloz Sadradze, o delegado-médico do CICV em Baku, Azerbeijão.
Em geral, por que a TB se espalha com índices tão alarmantes?
A TB é uma doença transmitida pelo ar e se espalha de maneira mais fácil, se comparada a outras enfermidades infecciosas. Basta inalar uma pequena quantidade de bacilos para se contagiar. Muitas pessoas podem se chocar quando descobrem que mais de 2 bilhões de pessoas – cerca de um terço da população do planeta – carregam os micróbios causadores da TB.
Por sorte, apenas uma em cada dez dessas pessoas portadoras do bacilos ficará doente de fato. Os micróbios podem ficar latentes por semanas, anos ou mesmo décadas, esperando o dia em que o sistema imunológico da pessoa esteja baixo, por exemplo, devido a uma quimioterapia ou se ela é portadora do vírus da imunodeficiência humana ou de diabetes. Então, a TB pode surge de repente e se torna potencialmente letal e, ao mesmo tempo, contagiosa.
Se não for tratada, cada pessoa com TB ativa contagiará, em média, outras dez a 15 pessoas por ano.
Sabemos que existem diferentes tipos de TB, como a multirresistente a medicamentos ou a extensivamente resistente. Qual é a diferença?
De um modo geral, a TB é uma doença curável quando as pessoas recebem os remédios corretos no momento certo e não interrompem o tratamento. Mas também pode ser incurável. Este é o caso da TB extensivamente resistente (XDR-TB). Existem alguns tipos de micobactérias que os antibióticos não conseguem matar porque se tornaram resistentes.
Muitas pessoas pensam que não se pode adquirir a TB resistente a medicamentos imediatamente. Existe um mito comum de que somente as pessoas que abandonaram o tratamento terminam desenvolvendo a TB multirresistente a medicamentos (MDR-TB) ou a XDR-TB. Na verdade, uma pessoa pode adquirir tanto esta cepa diretamente como terminar desenvolvendo um tipo de TB muito difícil de tratar e curar. Não é uma questão de ser um mal paciente ou de receber uma receita médica errada... é uma questão de falta de sorte.
Infelizmente, o número de casos da doença resistente a medicamentos está aumentando cada vez mais no mundo todo, de Baku a Pequim, de Lima a Londres. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), desde setembro passado, 57 países relataram pelo menos um caso de TB.
O slogan da Stop TB Partnership para o Dia Mundial da Tuberculose este ano é o lema é "Inovemos e Aceleremos os Esforços contra a Tuberculose". Em que nível o senhor diria que a comunidade internacional está atualmente no que se refere à maneira de abordar essa doença?
Creio que, hoje em dia, estamos no nível três e, definitivamente, temos de ir mais rápido. Precisamos fazer mais e agir mais rápido para fazer com que essa doença seja prioridade nas pautas de todos e, assim, darmos um basta a sua disseminação. Isso deve ser tratado como prioridade nos sistemas de saúde pública em todos os países, não só nos desfavorecidos.
Doenças como H1N1, mal de Alzheimer ou cardíacas quase sempre são manchetes nos jornais, mas não vemos o mesmo com relação à TB. Em silêncio, essa doença espreita milhões de pessoas no mundo todo e, ainda assim, não existe um sentido real de preocupação. Por que isso acontece e que desafios os professionais de saúde enfrentaam para lidar com isso?
É uma combinação de várias coisas. Primeiro, há uma falta de consciência do público geral e, quase sempre, dos responsáveis por tomar decisões. Também é uma doença incrivelmente difícil de se tratar. Se uma pessoa tem TB comum, estamos falando de estar em um tratamento de seis a oito meses. Ela não pode tomar álcool, precisa melhorar sua dieta e tomar remédios diariamente. Mas esta forma é relativamente barata e fácil de se tratar.
Adquirir a cepa resistente a medicamentos é outra história, que exige uma combinação de pílulas, pós e injeções por 24 a 36 meses ou mesmo mais tempo, dependendo de sua eficácia. É muito longo, duro e caro - às vezes custa dezenas de milhares de dólares. Na Geórgia e no Azerbaijão, as autoridades estão arcando com o tratamento na esperança de mantê-la sob controle, mas ainda enfrentam muitos desafios.
Diz-se que os presídios, em particular, são o lugar perfeito para que a TB cresça e se espalhe devido à superlotação, à má alimentação e à falta de serviços de saúde. O que o CICV está fazendo para impedir que a TB se espalhe nos presídios da Geórgia e do Azerbaijão?
De fato, os presídios são um lugar ideal para o crescimento da TB porque são lugares fechados. A incidência nos presídios é quase sempre mais alta do que na população civil – às vezes dez vez mais alta – devido às condições de vida, nutrição e contaminação cruzada.
Mas, ao mesmo tempo em que se podem confinar as pessoas em uma cela, não se pode manter a TB atrás das grades. A doença se espalha independente de qualquer coisa – seja porque o carcereiro a adquire e a leva para casa – onde não se suspeita de nada – ou um detento que é liberado e vê que é muito difícil continuar com os remédios uma vez que sai do presídio.
Quando a União Sovietica acabou, junto acabaram as infraestruturas médicas. Como consequência, os países da ex-URSS viram um aumento acentuado de casos de TB e de TB multirresistente a medicamentos na década de 90. Como parte do trabalho humanitário nos países afetados por conflitos armados, o CICV visita os presídios para monitorar as condições de detenção. Quando começamos a visitar os detentos no Azerbeijão e na Geórgia, em 1995, descobrimos que a TB era desenfreada entre os internos, portanto tivemos de trabalhar com as autoridades para melhorar a detecção, o tratamento e o acompanhamento.
Como podemos deter um inimigo mortal que não pode ser mantido atrás das grades?
Podemos começar nos certificando de que temos as ferramentas e os recursos corretos para identificar e lidar com o problema. Na Geórgia, ajudamos a desenvolver um sistema de detecção antecipada e encorajamos a implementação do Tratamento Supervisionado de Curta Duração (DOTS) da OMS, uma estratégia que pressupõe que os pacientes devem tomar os remédios sob supervisão médica. Como resultado, mais de 200 mil detidos foram detectados com TB entre 1998 e 2009. Cerca de 7 mil foram diagnosticados com a doença e começaram o tratamento.
Além disso, fizemos uma grande melhora em 90% das unidades médicas nos presídios e penitenciárias da Geórgia, incluindo o hospital penitenciário para doentes de tuberculose em Ksani, próximo a Tbilisi. O CICV também construiu e equipou o Laboratório Nacional de Referência para TB e ajudou a treinar a equipe.
Este mês, estamos transferindo nossas atividades relacionadas com a TB nos presídios às autoridades georgianas, mas continuaremos prestando assistência técnica e apoio.
E quanto ao Azerbaijão, que viu um aumento acentuado de MDR-TB nos últimos anos?
No Azerbaijão, temos assistido as autoridades penintenciárias na realização do programa anti-TB há 15 anos. Hoje, todos os detentos no país têm acesso a aparelhos modernos para o diagnóstico e drogas de alta qualidade de maneira gratuita. Como resultado, o número de mortes relacionadas com a TB na Instituição de Tratamento Especial para detentos, próximo a Baku, despencou de quase 300 em 1999 para 20 no ano passado.
Há quase três anos, apoiamos o Ministério da Justiça na implementação de um programa-piloto para tratar pacientes com MDR-TB. Até o momento, mais de 220 detentos já se increveram. Também estamos trabalhando com o Ministério da Saúde para levar o tratamento de MDR-TB às pessoas que já foram liberadas. Arcamos com as despesas de transporte para os pacientes e lhes oferecemos alimentos e artigos de higiene todos os meses. No momento, há 13 ex-detentos que recebem o tratamento e estou feliz de informar que um outro está completamente curado agora.
Dito isso, ao mesmo tempo em que vemos avanços em termos de como lidar com a TB no contexto penitenciário, o Azerbaijão, como muitos outros países, ainda enfrenta desafios em lidar com a doença entre a população civil, desde a identificação adequada de novos casos e a garantia de acesso ao tratamento a como abordar a questão do estigma e do isolamento que muitos doentes de TB enfrentam.
Ainda há muito a se fazer nessas áreas, mas continuo com esperanças de que a cada ano, a comunidade internacional, as agências de socorro e as autoridades locais darão um passo adiante para tornar a TB algo do passado, de uma vez por todas.